Como montar um Programa de Necessidades em Arquitetura

programa de necessidades

Um programa de necessidades detalhado e bem fundamentado é requisito essencial para todo e qualquer projeto. Basicamente, o objetivo principal dele é reunir e apresentar, de forma organizada, informações sobre o uso específico da futura edificação. Se você cozinha, sabe a importância que uma receita bem detalhada têm para que sua refeição não acabe virando um grande desastre. O programa de necessidades para arquitetura é quase como uma receita para a culinária, com a diferença de que ele não indica o modo de preparo. Ele apenas prescreve os ingredientes necessários, sua a quantidade, as características de cada ingrediente e seu lugar na panela, o modo como isso tudo vai ser utilizado é peculiar a cada projetista. Aqui não vou mostrar como cozinhar, mas sim como eu preparo o meu Mise en Place.

Basicamente, podemos dividir o processo em 3 fases, a seguir:

 

1º Fase: Coleta de informações.

Essa fase é bem peculiar a cada tipologia de edificação. Aqui você vai descobrir qual o público que vai utilizar o espaço, qual a frequência de utilização e quais as necessidades específicas desse público. É precisamente por esse trabalho que costuma-se dizer que um bom arquiteto deve ter conhecimento de diversas profissões. Ele precisa ser um pouco de tudo(um pouco enfermeiro, um pouco sapateiro, um pouco pai/mãe de família, um pouco cozinheiro, um pouco contador, etc.) para poder projetar espaços que sejam adequados às suas futuras funções. É bem verdade que edifícios duram mais que seu uso original, e que sempre buscamos implementar artifícios nos projetos para que o edifício possa ser flexível o suficiente, tanto para se adaptar a uma nova utilização, como para comportar as mudanças tecnológicas e sociais de uma determinada época. Entretanto, antes disso, o edifício deve servir ao uso que lhe foi proposto, pois este é o motivo principal de sua existência.

As respostas aos itens de um programa de necessidades podem ser conseguidas de diversas maneiras, mas vou mencionar aqui as 3 formas principais que eu utilizo:

A – Utilizando Referenciais

Basicamente, você vai utilizar programas de necessidades de edificações que já existem, de mesma tipologia, e que tenham as mesmas características do seu projeto. Por exemplo, se você for projetar uma escola para 1500 alunos, você deve buscar referenciais de escolas de porte semelhante à proposta de 1500 alunos. O número de referenciais não importa tanto, pegue 3, 5 ou 10. Vai chegar um momento em que as informações vão começar a se repetir, então você descobrirá que já tem uma quantidade suficiente de referenciais. Você vai verificar a quantidade e as dimensões das salas de aula, sala dos professores, auditório, biblioteca, recepção, etc.

B – Pensamento e Reflexão

Algumas vezes, o referencial não responde todas as questões específicas sobre o programa. Nesses casos, pense e reflita profundamente em como o espaço vai ser usado. Por exemplo, se você for projetar uma cozinha industrial para 15 pessoas, imagine as elas cozinhando. Elas vão precisar de um fogão de qual tamanho? Quantos balcões para preparação do alimento? De que maneira o alimento vai chegar até a cozinha? Onde as pessoas vão vestir seus aventais e toucas antes de entrar na cozinha? Como elas vão fazer a higienização do espaço? Procure pensar quanto espaço precisará para depósito de equipamentos, câmera fria, espaço para armazenamento de alimentos.

C – Através de Entrevistas

Faça uma entrevista exaustiva com um profissional da área ou com seu cliente, e extraia o máximo de suas necessidades e desejos. Por exemplo, se o projeto for de uma residência, você deve descobrir quantas pessoas vão morar na casa, quais os costumes dos moradores, quais as dificuldades que eles possuem no dia a dia, etc. Pergunte sobre sua rotina, que horas que vão dormir, que horário que saem e entram em casa normalmente, como lavam suas roupas, sua casa, o carro, etc. Se você for projetar uma oficina automotiva, procure conversar com um mecânico sobre quais equipamentos são utilizados, qual espaço necessário para o reparo de um automóvel, para onde vai o óleo do carro nas trocas de óleo, etc.

Ao fim dessa etapa, você vai ter levantado as necessidades reais dos futuros usuários do espaço. Agora, deve passar para a etapa de adequação à legislação vigente.

 

2º Fase: Adequação do programa à legislação vigente

Basicamente, as normas de legislação vão definir a adequação do projeto quanto a sua acessibilidade, proteção contra incêndio, vigilância sanitária, número de sanitários/usuário, número de vagas de automóvel, etc. Não vou citar nenhuma norma específica aqui pelo motivo de que elas estão sempre sendo atualizadas, bem como porque existem normas muito específicas de cada localidade e cada tipologia de edificação. Mas cabe dizer que essa etapa é importante para que o projeto já seja concebido sob os moldes legais, diminuindo a probabilidade para que necessitem adequações posteriores.

 

3º Fase: Refinamento e organização das informações

Com o processo de coleta de informações finalizado, é hora de montar o programa de necessidades de forma organizada. Isso permite que, consultando ao longo do projeto, possamos nos localizar e ter um domínio maior do programa, no caso de programas mais complexos e extensos.

Essa etapa depende da sua própria organização, mas basicamente, você deve tentar fazer com que as informações fiquem fáceis de serem acessadas, e de forma rápida, enquanto está projetando.

A imagem abaixo demonstra o modo de organização que utilizo nos meus projetos. Na primeira linha, as informações que constam em cada coluna. Na segunda e terceira, em cores, eu divido o projeto em setores e coloco um resumo de informações. Assim, fica fácil de achar qualquer setor, pois eles estarão marcados através das cores. Abaixo dessa informação, eu detalho o programa, conforme demonstrado na imagem modelo.

programa exemplo
Modelo de programa. Fonte: O autor.

Para ficar mais claro, vou demostrar o modelo aplicado a um programa fictício, como exemplo. Segue abaixo:

exemplo programa de necessidades
Exemplo do programa de necessidades. Fonte: O autor.

uma vez com a tabela automatizada, você pode trocar suas informações a qualquer momento, com uma atualização automática. A cada novo programa de necessidades, você já pega um modelo que já fez, com sua própria relação de cores e organização de informações, apenas alimentando as informações na tabela.

Para finalizar, peço que não caia na tentação de pular essa etapa. Apesar de não ser uma atividade tão prazerosa quanto projetar, ela é muito importante. Para ter uma ideia de como o programa de necessidades é importante, imagine como seria estar com o projeto praticamente finalizado, com volumes bem compostos, circulações e conexões bem definidas, e o cliente informa que necessita de um ambiente que não havia lembrado. Quando se inicia um projeto sem ter um programa de necessidades bem elaborado, esse é um dos inúmeros problemas que podem acontecer. Após estar com seu programa de necessidades em mãos, o próximo passo será a criação de um organograma e fluxograma, que será assunto para um artigo futuro.

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2 Comments on “Como montar um Programa de Necessidades em Arquitetura”

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