Dica de Livro: Supercrítico

Supercrítico

A melhor maneira de definir Supercrítico seria dizer que se trata de um livro pequeno, porém denso. O livro apresenta a interação de ideias sobre arquitetura e cidade (entre outros temas) de forma crítica entre os arquitetos Rem Koolhaas e Peter Eisenman. São agrupadas 4 situações, dotadas de profunda reflexão, abordando o trabalho prático e teórico destes dois profissionais, que têm reconhecimento mundial como dois principais proponentes de uma forma crítica da prática arquitetônica. A seguir, descrevo melhor cada uma dessas situações:

1 – Conversa entre Rem Koolhaas e Peter Eisenman

O primeiro encontro é entre Rem e Peter, e ocorreu no início de 2006, na AA(Architectural Association School of Architecture) em Londres, mediada por Brett Steele. Na conversa, são abordados temas sobre o que consiste uma prática crítica em arquitetura nos dias atuais, mostrando as visões dos arquitetos em meio ao nosso mundo globalizado e midiático.

2 – Conversa entre críticos de arquitetura

O segundo, também na AA, é um encontro ocorrido dois dias após o encontro de REM e PETER, onde os críticos de arquitetura Robert Somol e Jeffrey Kipnis fazem uma análise do trabalho e trajetória profissional dos dois arquitetos. Nesse encontro, são elencados temas importantíssimos, como a diferença entre o projeto projetivo e o projeto crítico e os sujeitos para quem se projeta, suas potencialidades e limitações.

3 – Peter Eisenman sobre a IAUS

O terceiro reúne uma entrevista de Peter na AA a respeito do Institute for Architecture and Urban Studies e seu ponto de vista na época(a entrevista aconteceu em 1975) sobre a limitação das universidades como local de ensino de arquitetura, principalmente pelo fato de não conectarem questões técnicas e teóricas em situações de práticas reais.

4 – Rem Koolhaas sobre o método crítico-paranoico

O quarto e último, segue com uma fala de REM para a Art Net, em Londres, em 1976. Koolhaas discorre sobre o método crítico-paranóico proposto por Dalí em seu texto “a conquista do irracional”, e a desacreditada interpretação dos críticos a respeito deste autor, associando o método a sua interpretação de Nova York, que é sua tese. Na conversa, Rem aponta o ódio patológico que Dali desenvolveu por Le Corbusier e de como ele passou a vida denegrindo-o.

Considerações finais

Após os encontros, o livro apresenta um posfácio, em que reúne tópicos de fatos, observações e pensamentos acerca dos dois arquitetos mencionados, e da relação entre suas ideias e a concretização de uma prática crítica na arquitetura.

Cabe mencionar que o livro instiga a prática da escrita e análise crítica. Nós, como arquitetos, somos intelectuais que operam apenas no campo da própria arquitetura. Koolhaas em alguns momentos do livro defende que devemos não nos tornar intelectuais da arquitetura, mas intelectuais públicos, ou seja, intelectuais capazes de contribuir em outros domínios além da arquitetura. Tentar construir uma inteligência que não é apenas um conhecimento sobre a arquitetura, mas um conhecimento sobre o mundo, pois o arquiteto deve ser sensível ao contexto ao qual insere sua arquitetura.

Termino este artigo citando uma frase de Koolhaas que deixa uma ideia do âmago do livro:

“se há várias possibilidades entre fazer mudanças no mundo e deixá-lo como está, o arquiteto está sempre do lado da mudança. Se essas possibilidades se estendem entre executar ideias e observá-las, o arquiteto está sempre do lado da execução. Não entendo como uma profissão pode se realizar com essa combinação de intervenção, mudança, execução e ação como base prática, deixando a abstinência, a observação e a reflexão à margem.” Rem Koolhaas, p. 27

Rem e Peter

Referência

Eisenman, Peter. Supercrítico. Peter Eisenman, Rem Koolhaas. tradução: Cristina Fino. São Paulo: Cosay Naify, 2013

 

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